Arquivo Litúrgico

domingo, 30 de janeiro de 2011

O idioma da liturgia romana


Rafael Vitola Brodbeck
“A Língua Latina é a língua própria da Igreja Romana.”[i]
A língua oficial para a celebração da Santa Missa e de todos os atos litúrgicos, no rito romano, em ambas as formas, tradicional (tridentina, extraordinária, pré-conciliar, de São Pio V e do Beato João XXIII) e moderna (renovada, ordinária, pós-conciliar, de Paulo VI e de João Paulo II), é o latim. “O Latim exprime de maneira palmar e sensível a unidade e a universalidade da Igreja.”[ii] O Concílio Vaticano II, ao contrário do que muitos pensam, não aboliu o uso do idioma latino, antes o incentivou. “Salvo o direito particular, seja conservado o uso da Língua Latina nos Ritos latinos.”[iii]
Já antes do Concílio, o Beato João XXIII, que o convocou, ensinara:
“Que o antigo uso da Língua Latina seja mantido, e onde houver caído quase em abandono, seja absolutamente restabelecido. – Ninguém por afã de novidade escreva contra o uso da Língua Latina nos sagrados ritos da Liturgia.”[iv]
O latim permanece idioma oficial do culto no rito romano, mesmo após a reforma empreendida por Paulo VI e João Paulo II, por ocasião do Vaticano II. O rito romano moderno, sobre o qual tratamos nesta obra, é celebrado, pois, em latim, sua língua própria. Não houve uma proibição do latim, mas sim a permissão para que a Missa seja oferecida em vernáculo, i.e., nas línguas nacionais dos vários países. Pode-se, além disso, dizer determinadas partes da Missa em latim e outras em vernáculo.
Portanto, a regra é que a Missa e os demais atos litúrgicos (Ofício, sacramentos, sacramentais), no rito romano em sua forma ordinária, deva ser celebrada em latim, permitindo-se que seja oferecida em vernáculo.
Não é outra a claríssima disposição da lei litúrgica:
“A Missa se celebre quer em língua latina ou quer noutra língua, contanto que se usem textos litúrgicos que têm sido aprovados, de acordo com as normas do direito. Excetuadas as Celebrações da Missa que, de acordo com as horas e os momentos, a autoridade eclesiástica estabelece que se façam na língua do povo, sempre e em qualquer lugar é lícito aos sacerdotes celebrar o santo Sacrifício em latim.”[v]
Todo clérigo, se assim o desejar, pode celebrar em latim mesmo no rito moderno. Tem ele o direito de assim proceder. E, mais do que direito, é sumamente conveniente que os párocos e reitores de igreja, ao menos uma vez por semana, celebrem em latim para o povo, sem descuidar, outrossim, das majestosas Missas cantadas – recomendadas pelos livros litúrgicos, pelos Papas, e pelos autores mais respeitados em liturgia. Também o Bispo cuide não só de promover o latim, como celebre seguidamente quer totalmente no idioma latino, quer intercalando cerimônias nessa língua em suas celebrações vernáculas. Principalmente a Missa pontifical seja, eventualmente, em latim.
A Missa em latim segundo a forma antiga, pré-conciliar, hoje é chamada, a partir do Motu Proprio Summorum Pontificum, de uso extraordinário do rito romano. Como dissemos, entretanto, não só essa é em latim, mas também a forma nova, o uso ordinário, o rito romano moderno.
Ao lado de tantas Missas no rito antigo que são celebradas mundo afora, e começam a ser popularizadas no Brasil – sobretudo a partir do excelente trabalho da Administração Apostólica São João Maria Vianney e seu Bispo, Dom Fernando Arêas Rifan, e também do Instituto Bom Pastor –, necessariamente em latim, será muito oportuno que também as Missas no rito novo sejam oferecidas no idioma latino. Com isso não se quer impedir a Missa em vernáculo, mas promover o latim.
Uma boa medida é que as igrejas e oratórios com mais de uma Missa no Domingo reservem uma delas, ao menos, para a celebração em latim – no rito moderno mesmo. Se houver quatro Missas, que duas delas sejam em latim: uma rezada, outra cantada. Além disso, algumas Missas durante a semana podem ser em latim, e Missas em festividades especiais também – solenes e cantadas, de preferência. Eventualmente, se houver procura dos fiéis ou interesse dos párocos e reitores de igreja, ofereça-se, junto da Missa em latim no rito moderno, a Missa em latim no rito tradicional.
Motivos para a preservação da língua própria do rito romano não faltam. Todavia, expor todos eles escaparia à razão deste livro. Cito, então, apenas o lapidar Magistério de Pio XII: “O uso da Língua Latina é um claro e nobre indício de unidade e um eficaz antídoto contra todas as corruptelas da pura doutrina.”[vi]
Pode-se, então, celebrar o rito romano moderno, pós-conciliar, em vernáculo (em uma ou mesmo em várias línguas distintas na mesma Missa, como acontece nas celebrações internacionais, um trecho em cada idioma), ou em latim. Sempre.
[i] Sua Santidade, o Papa São Pio X, Encíclica Inter Pastoralis Officii
[ii] Sua Santidade, o Papa João Paulo I, Discurso ao Clero Romano
[iii] Concílio Ecumênico Vaticano II. Constituição Sacrosanctum Concilium, 36, § 1[iv] Sua Santidade, o Papa Beato João XXIII. Encíclica Veterum Sapientia
[v] Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instrução Redemptionis Sacramentum, 112
[vi] Sua Santidade, o Papa Pio XII. Encíclica Mediator Dei

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Papa Bento XVI desconsidera o receber o Santíssimo Sacramento na mão





Fonte: Recados de Aarão


Notícia de enorme importância: nas Missas celebradas pelo Papa (desde a Missa na véspera do Natal de 2010), não só ele mas todos os sacerdotes que ajudam a distribuir a Comunhão aos fiéis não irão mais colocar a Hostia Santa nas palmas das mãos, mas somente na boca, a quem for comungar, leigo ou clérigo que seja.
Não hádúvida, para quem ja esteve pelo menos uma vez nas missas celebradas pelo Papa em São Pedro que o momento da comunhão é, muitas vezes, de grande confusão, e há pessoas que estendem a mão para o sacerdote, dando às vezes a impressão de querer pegar uma partícula. Agora, cada um,  de forma mais ordenada e com menos perigo de as partículas cairem ao chão, deverá calmamente comparecer perante o ministro e receber dele na boca a Sagrada Comunhão.
Esta forma de receber o Corpo de Cristo, não só aumenta a devoção e a consciência da presença real do Salvador, mas também previne não raros furtos das sagradas espécies que podem acontecer nas Missas mais lotadas.
Para aqueles que dirão que "se torna atrás no tempo" etc etc é SEMPRE bom lembrar:
a) a ÚNICA forma prevista pelo Missal de Paulo VI é a de receber a comunhão na boca.
b) a possibilidade alternativa de a receber nas mãos é regulada por um INDULTO que pode ser concedido (e retirado) em alguns lugares e por determinados bispos (não todos).



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FALA O CARDEAL
Cardeal Antonio Cañizares Llovera, com a Capa Magna abolida por Paulo VI.
A liturgia católica vive “uma cerca crise” e Bento XVI quer dar vida a um novo movimento litúrgico, que volte a trazer mais sacralidade e silêncio à Missa, e mais atenção à beleza no canto, na música e na arte sacra.
O Cardeal Antonio Cañizares Llovera, 65 anos, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, que enquanto bispo na Espanha era chamado de “o pequeno Ratzinger”, é o homem ao qual o Papa confiou esta tarefa. Nesta entevista a Il Giornale, o “ministro” da liturgia de Bento XVI revela e explica programas e projetos.


Como cardeal, Joseph Ratzinger havia lamentado uma certa pressa na reforma litúrgica pós-conciliar. Qual é a sua opinião? 
A reforma litúrgica foi realizada com muita presa. Havia ótimas intenções e o desejo de aplicar o Vaticano II. Mas houve precipitação. Não se deu tempo e espaço suficiente para acolher e interiorizar os ensinamentos do Concílio; de repente, mudou-se o modo de celebrar.
Recordo bem a mentalidade então difundida: era necessário mudar, criar algo novo. Aquilo que havíamos recebido, a tradição, era visto como um obstáculo. A reforma foi entendida como obra humana, muitos pensavam que a Igeja era obra de nossas mãos e não de Deus. A renovação litúrgica foi vista como uma investigação de laboratório, fruto da imaginação e da criatividade, a palavra mágica de então.


Como cardeal, Ratzinger havia prognosticado uma “reforma da reforma” litúrgica, palavras atualmente impronunciáveis, mesmo no Vaticano. Todavia, parece evidente que Bento XVI a deseje. É possível falar dela?
Não sei se é possível, ou se é conveniente, falar de “reforma da reforma”. O que vejo absolutamente necessário e urgente, segundo o que deseja o Papa, é dar vida a um novo, claro e vigoroso movimento litúrgico em toda a Igreja. Porque, como explica Bento XVI no primeiro volume de sua Opera Omnia, em relação à liturgia se decide o destino da fé e da Igreja. Cristo está presente na Igreja através dos sacramentos. Deus é o sujeito da história, e não nós. A liturgia não é uma ação do homem, mas de Deus.


O Papa, mais que decisões impostas de cima, fala com o exemplo. Como ler as mudanças introduzidas por ele nas celebrações papais? 
Acima de tudo, não deve haver nenhuma dúvida sobre a bondade da renovação litúrgica conciliar, que trouxe grandes benefícios para a vida da Igreja, como a participação mais consciente e ativa dos fiéis e a presença enriquecida da Sagrada Escritura. Mas além destes e outros benefícios, não faltaram sombras, surgidas nos anos seguintes ao Vaticano II: a liturgia, isso é fato, foi “ferida” por deformações arbitrárias, provocadas também pela secularização que desgraçadamente atinge também dentro da Igreja. Consequentemente, em muitas celebrações já não se coloca Deus no centro, mas o homem e seu protagonismo, sua ação criativa, o papel principal é dado à assembléia. A renovação conciliar foi entendida como uma ruptura e não como um desenvolvimento orgânico da tradição. Devemos reaviver o espírito da liturgia e para isso são significativos os gestos introduzidos nas liturgias do Papa: a orientação da ação litúrgica, a cruz no centro do altar, a comunhão de joellhos, o canto gregoriano, o espaço para o silêncio, a beleza na arte sacra. É também necessário e urgente promover a adoração eucarística: diante da presenção real do Senhor, não se pode senão estar em adoração.


Quando se fala de uma recuperação da dimensão do sagrado, há sempre quem apresente tudo isso como um simples retorno ao passado, fruto de nostalgia. Como o senhor responde?
A perda do sentido do sagrado, do Mistério, de Deus, é uma das perdas de consequências mais graves para um verdadeiro humanismo. Quem pensa que reavivar, recuperar e reforçar o espírito da liturgia e a verdade da celebração é um simples retorno a um passado superado, ignora a verdade das coisas. Colocar a liturgia no centro da vida da Igeja não é em nada nostálgico, mas, pelo contrário, é garantia de estar a caminho em direção ao futuro.

Como julga o estado da liturgia católica no mundo? 
Diante do risco da rotina, diante de algumas confusões, da pobreza e da banalidade do canto e da música sacra, pode-se dizer que há uma certa crise. Por isso é urgente um novo movimento litúrgico. Bento XVI, indicando o exemplo de São Francisco de Assis, muito devoto do Santíssimo Sacramento, explicou que o verdadeiro reformador é alguém que obedece a fé: não se move de maneira arbitrária e não se arroga nenhuma discricionariedade sobre o rito. Não é o dono, mas o custódio do tesouro instituido pelo Senhor e confiado a nós. O Papa, portanto, pede à nossa Congregação promover uma renovação segundo o Vaticano II, em sintonia com a tradição litúrgica da Igreja, sem esquecer a norma conciliar que prescreve não introduzir inovações exceto quando as requererem uma verdadeira e comprovada utilidade para a Igreja, com a advertência de que as novas formas, em todo caso, devem surgir organicamente das já existentes.


O que pretende fazer como Congregação? 
Devemos considerar a renovação litúrgica segundo a hermêutica da continudade na reforma indicada por Bento XVI para ler o Concílio. E para fazê-lo, é necessário superar a tendência de “congelar” o estado atual da reforma pós-conciliar, de um modo que não faz justiça ao desenvolvimento orgânico da liturgia da Igreja.
Estamos tentanto levar adiante um grande empenho na formação dos sacerdotes, seminaristas, consagrados e fiéis leigos, para favorecer a compreensão do verdadeiro significado das celebrações da Igreja. Isso requer uma adequada e ampla instrução, vigilância e fidelidade nos ritos, e uma autêntica educação para vivê-los plenamente. Este empenho será acompanhado pela revisão e pela atualização dos textos introdutórios de diversas celebrações (prenotanda). Somos conscientes também de que dar impulso a este novo movimento não será possível sem uma renovação pastoral da iniciação cristã.
Uma perspectiva que deveria ser aplicada também à arte e à música…
O novo movimento litúrgico deverá fazer descobrir a beleza da liturgia. Por isso, abriremos uma nova seção em nossa Congregação dedicada à “Arte e música sacra” a serviço da liturgia. Isso nos levará a oferecer, o quanto antes, critérios e orientações para a arte, canto e música sacras. Como também pensamos em oferecer o mais rápido possível critérios e orientações para a pregação.


Nas Igrejas desaparecem os genuflexórios, a Missa às vezes é ainda um espaço aberto à criatividade, são cortadas inclusive as partes mais sagradas do cânon. Como inverter esta tendência? 
A vigilância da Igreja é fundamental e não deve ser considerada como algo inquisitório ou repressivo, mas como um serviço. Em todo caso, devemos tornar todos conscientes da exigência, não só dos direitos do fiéis, mas também dos “direitos de Deus”.
Existe também o risco oposto, isto é, o de se crer que a sacralidade da liturgia depende da riqueza dos paramentos: uma posição fruto de esteticismo que parece ignorar o coração da liturgia…
A beleza é fundamental, mas é algo muito distintito de um esteticismo vazio, formalista e estéril, no qual se cai às vezes. Existe o risco de se acreditar que a beleza e a sacralidade da liturgia dependem da riqueza ou da antiguidade dos paramentos. É necessário uma boa formação e uma boa catequese baseada no Catecismo da Igreja Católica, evitando também o risco oposto, o da banalização, e atuando com decisão e energia quando se recorre a costumes que tiveram seu sentido no passado, mas que atualmente não têm ou não contribuem de nenhum modo para a verdade da celebração.

Poderia nos dar alguma indicação concreta sobre o que poderia mudar na liturgia? 
Mais que pensar em mudanças, devemos nos comprometer em reaviver e promover um novo movimento litúrgico, seguindo o ensinamento de Bento XVI, a reaviver o sentido do sagrado e do Mistério, pondo Deus no centro de tudo. Devemos impulsionar a adoração eucarística, renovar e melhorar o canto litúrgico, cultivar o silêncio, dar mais espaço à meditação. Disso surgirá as mudanças…



Escrito por G. M. Ferretti
dezembro 27, 2010 às 2:04 pm
Publicado em Atualidades, Igreja, O Papa, Vaticano II
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« Em Roma, não à Comunhão na Mão.



domingo, 23 de janeiro de 2011

O que pode o que não pode se fazer em termos de liturgia

fonte: www.ahoradamissa.com

"Os abusos, sem dúvida, «contribuem para obscurecer a reta fé e a doutrina católica sobre este admirável Sacramento». Desta forma, também se impede que possam «os fiéis reviver de algum modo a experiência dos discípulos de Emaús: Então se lhes abriram os olhos e o reconheceram»... Não é estranho que os abusos tenham sua origem em um falso conceito de liberdade. Posto que Deus nos tem concedido, em Cristo, não uma falsa liberdade para fazer o que queremos, mas sim a liberdade para que possamos realizar o que é digno e justo. Isto é válido não só para os preceitos que provêm diretamente de Deus, mas sim também, de acordo com a valorização conveniente de cada norma, para as leis promulgadas pela Igreja. Por isso, todos devem se ajustar às disposições estabelecidas pela legítima autoridade eclesiástica" (Redemptionis Sacramentum).

Abusos litúrgicos: o que são e o que se deve fazer para combatê-los


O abuso litúrgico é antes de tudo uma falsificação da liturgia católica, no dizer da Instrução Redemptionis Sacramentum. Todo católico tem o direito de ver celebrada a sagrada liturgia sem improvisações, sem experimentação, de acordo com as normas estabelecidas pela Santa Sé. Esse direito reclama dos presbíteros e também dos demais fiéis o dever de observar fielmente as regras litúrgicas. Todo católico deve, portanto, instruir-se a respeito do assunto e lutar, com maturidade e serenidade, para que os Santos Mistérios sejam celebrados segundo a liturgia determinada pela Igreja.

Selecionamos, a seguir, alguns equívocos infelizmente freqüentes, em termos de liturgia. Lembramos, mais uma vez, que a leitura da Instrução Redemptionis Sacramentum é importantíssima. Também recomendamos a leitura da Instrução Geral do Missal Romano, nos tópicos de interesse.

Por fim, um convite à prudência. A premissa com que se deve trabalhar é: sem caridade, melhor não agir. O dano de uma correção feita sem caridade pode ser maior que o próprio abuso. O fiel deve, portanto, apoiar-se, primeiro, na caridade, segundo, na caridade, terceiro, na caridade, ao tomar a iniciativa de apontar um abuso litúrgico. A título de sugestão, recomendaríamos o engajamento nas equipes pastorais responsáveis pelo auxílio à liturgia, como forma de melhor educar a comunidade. Se o equívoco for feito pelo próprio sacerdote, deve-se conversar diretamente com ele, sem antecipar o assunto com outros fiéis, o que seria um desrespeito ao ministro de Deus. É claro que nos casos mais graves (vide "Graviora delicta" na Redemptionis Sacramentum), o assunto poderá exigir uma comunicação ao bispo.

Um erro freqüente: rezar orações próprias do sacerdote


Os fervorosos fiéis da figura à esquerda estão cometendo um dos equívocos mais comuns em termos de liturgia. Há orações que são próprias e exclusivasdo sacerdote. No caso específico, rezam o "Por Cristo, com Cristo, em Cristo...", a doxologia com que o sacerdote encerra a anáfora (a parte central da missa). Só o padre pode pronunciá-la. Mesmo que o celebrante convide ("todos juntos!", etc.) os fiéis deverão ficar em silêncio e responder, ao final, o solene "amém" (cf. IGMR 151).

Os leigos também não devem rezar a oração da paz ("Senhor Jesus Cristo, dissestes aos vossos apóstolos: Eu vos deixo a paz, Eu vos dou a minha paz..."). Só o sacerdote pronuncia essa oração.

Há que se distinguir os papéis do sacerdote e do leigo na missa: "Deve-se evitar o perigo de obscurecer a complementaridade entre a ação dos clérigos e dos leigos, para que as tarefas dos leigos não sofram uma espécie de «clericalização», como se fala, enquanto os ministros sagrados assumem indevidamente o que é próprio da vida e das ações dos fiéis leigos" (Redemptionis Sacramentum).

Comportamento inconveniente dos fiéis


Conversas, barulho, alvoroço, danças... nada disso combina com a missa. Certamente haverá locais e circunstâncias propícias para extravasar a alegria de ser cristão. Na missa, vale a "regra de ouro": o que não caberia fazer no Calvário, não cabe fazer na missa.

Estamos diante do sacrifício do Filho de Deus! No altar, Jesus oferece-se ao Pai como vítima, por nossos pecados. Portanto, conversar com o vizinho, atender chamadas de celulares, bater palmas ou fazer coreografias, danças, etc., nada disso é próprio na missa.

Abusos cometidos pelo celebrante


A imagem ao lado, colhida na Internet, teria sido flagrada na Jornada Mundial da Juventude, em Toronto/2002. Se a cena é verdadeira, tudo está errado: o sacerdote não veste os paramentos como estabelecido (a casula, pelo menos, não está presente); o chapéu; os óculos escuros; o altar improvisado (um caixote!); nada, enfim, que lembre -- nem de longe -- a dignidade e a santidade do mistério que se celebra!

"Grande é o ministério «que na celebração eucarística têm principalmente os sacerdotes, a quem compete presidir in persona Christi (na pessoa do Cristo), dando um testemunho e um serviço de Comunhão, não só à comunidade que participa diretamente na celebração, mas sim também à Igreja universal, à qual a Eucaristia fez sempre referência. Infelizmente, ou lamentavelmente, sobretudo a partir dos anos da reforma litúrgica depois do Concílio Vaticano II, por um mal-entendido no sentido de criatividade e de adaptação, não se têm faltado os abusos, dos quais muitos têm sido causa de mal-estar» (R.S., 30).

Com efeito, ao lado dos benefícios advindos da reforma litúrgica, convivemos com um certo "protagonismo" no papel do ministro. O próprio sacerdote se sente de certo modo pressionado a corresponder a essa expectativa dos fiéis, de terem "algo sempre novo" nas missas dominicais. Daí surgem as experimentações, os abusos, as improvisações, uma verdadeira babel litúrgica. Mais uma vez lembrando: a missa não é lugar para tais experimentos. São abusos litúrgicos, por exemplo:

modificar os textos litúrgicos - "Cesse a prática reprovável de que sacerdotes, ou diáconos, ou mesmo os fiéis leigos, modificam e variam, a seu próprio arbítrio, aqui ou ali, os textos da sagrada Liturgia que eles pronunciam. Quando fazem isto, trazem instabilidade à celebração da sagrada Liturgia e não raramente adulteram o sentido autêntico da Liturgia" (R.S., 59);

pedir que os fiéis acompanhem o sacerdote na Oração Eucarística - "A proclamação da Oração Eucarística, que por sua natureza, é pois o cume de toda a celebração, é própria e exclusiva do sacerdote, em virtude de sua mesma ordenação. Portanto, é um abuso fazer que algumas partes da Oração Eucarística sejam pronunciadas pelo diácono, por um ministro leigo, ou ainda por um só ou por todos os fiéis juntos. A Oração Eucarística, portanto, deve ser pronunciada em sua totalidade, tão somente pelo Sacerdote" (R.S., 52);

interromper o rito da missa para intercalar orações não previstas - agregar orações de cura ou de libertação àquelas previstas no missal, súplicas livres depois da consagração etc.;

confiar a homilia a leigos - a homilia poderá ser suprimida nas missas durante a semana, mas é de rigor nas dominicais e "será feita, normalmente, pelo mesmo sacerdote celebrante, ou este a delegará a um outro, concelebrante, ou às vezes, de acordo com as circunstâncias, também ao diácono, mas nunca a um leigo" (R.S., 64). Também são práticas abusivas trocar a homilia por apresentações teatrais, testemunhos de particulares, etc.;

aproveitar a homilia para falar de temas que não guardam relação com as leituras - "Ao fazer a homilia, procure-se iluminar, em Cristo, os acontecimentos da vida. Faça-se isto, sem dúvida, de tal modo que não se esvazie o sentido autêntico e genuíno da palavra de Deus, por exemplo, tratando só de política ou de temas profanos, ou tomando como fonte idéias que provêm de movimentos pseudo-religiosos de nossa época" (R.S., 67);
A relação acima é apenas exemplificativa, não exaustiva. Há que se ter em mente que "a ordenação da sagrada Liturgia é da competência exclusiva da autoridade eclesiástica; esta reside na Sé apostólica e, na medida que determine a lei, no Bispo" (R.S., 14). Ninguém tem o direito de "mexer" na liturgia, mesmo que movido pelas melhores intenções. Mais uma vez recomendamos uma leitura da Instrução Redemptionis Sacramentum, de onde retiramos os excertos indicados acima.

"Ministros da Eucaristia"




O ministro da Eucaristia é o sacerdote. A Igreja recomenda não mais chamar os leigos que auxiliam o sacerdote na distribuição da comunhão de "ministros da Eucaristia", "ministros extraordinários da Eucaristia", "ministros especiais da Eucaristia" ou "ministros especiais da sagrada comunhão". O nome recomendado é "ministros extraordinários da sagrada comunhão".

As imagens ao lado (colhidas na Internet) são um exemplo cabal do quenão deve ser feito.

O templo é pequeno, ou seja, a quantidade de fiéis deve ser também pequena. Logo, os ministros extraordinários seriam desnecessários. Na verdade, só se admite sua presença quando o número de comungantes for tão grande que a distribuição da comunhão retardaria a missa além do que seria razoável. Sem essa condição, basta o acólito, para auxiliar o sacerdote na distribuição da comunhão.

Nas imagens também vemos o sacerdote entregar frações do pão eucarístico a leigos, o que é expressamente vedado pelas normas litúrgicas (vide R.S., 73). A fração do pão, iniciada depois de dar a paz e enquanto se reza o "Cordeiro de Deus" é realizada somente pelo sacerdote, ajudado, se for o caso, pelo diácono ou outro sacerdote concelebrante.
Tenha-se sempre em mente, portanto, que os leigos só podem participar da distribuição da comunhão aos fiéis extraordinariamente, nas condições acima indicadas. Não há, por conseguinte, um "cargo" de ministro extraordinário, em que pese exigir-se dos leigos que prestem esse serviço uma conduta que não venha a causar escândalos.

Os ministros extraordinários da sagrada comunhão, devem se apresentar ao sacerdote após ele ter comungado, recebem a comunhão do sacerdote e a âmbula, para distribuir a comunhão aos fiéis nos locais indicados pelo celebrante. Que se utilizem patenas, para evitar a perda de partículas ou partes delas. É abusiva a prática de improvisar frases na distribuição da comunhão. Diz-se "O Corpo de Cristo" e o fiel responde "Amém", comungando na presença do ministro (ordinário ou extraordinário). Terminada a distribuição, as âmbulas são devolvidas ao sacerdote.

Obviamente, que os leigos encarregados desse serviço devem vestir-se com o máximo decoro. O padrão de conduta deve ser a discrição; nada de gestual exagerado ou qualquer outro protagonismo.

A distribuição da comunhão


Pode-se comungar de joelhos ou de pé. Quando se comunga de pé, recomenda-se fazer, antes de receber o Sacramento, a devida reverência (R.S., 90). Além disso, o fiel tem sempre o direito a escolher se deseja receber a sagrada Comunhão na boca ou se quer receber na mão o Sacramento. A forma tradicional de se comungar é diretamente na boca. Se prefere receber na mão, deve apresentar-se com as mãos abertas, sobrepostas, receptivas a receber a sagrada comunhão. Não é correto "pegar" a partícula como se fosse um objeto comum. Recebida a comunhão, o comungante deve consumi-la imediatamente, diante do ministro.
Mais ainda: "Não está permitido que os fiéis tomem a hóstia consagrada nem o cálice sagrado por si mesmos, nem muito menos que se passem entre si de mão em mão" (R.S., 94). A imagem acima mostra justamente um flagrante de desrespeito a essa norma. Não se deve permitir que a distribuição da comunhão seja do tipo self service, de modo que cada um tome a hóstia com as próprias mãos na âmbula e ministre a si mesmo a comunhão. Em se distribuindo a comunhão sob as duas espécies, a comunhão será obrigatoriamente dada diretamente na boca do comungante.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Na Santa Missa devemos dá as mãos na hora do Pai Nosso?

Uma senhora perguntou ao Cardeal Arinze, que foi Prefeito da Congregação para o Culto Divino, se era correto ou não dá-se as mãos quando se fosse rezar o Pai Nosso na Santa Missa.

O Cardeal respondeu que não está escrito no livro da Santa Missa que as pessoas se deem as mãos, nem que o sacerdote dê as mãos para alguém. Assista ao vídeo:

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Recordando: Entrevista com Pe. Paulo Ricardo

Prosseguindo a nossa série de entrevistas sobre a situação litúrgica atual do Brasil e do mundo, após a nossa entrevista com Dom Antonio Keller (Bispo de Frederico Westphalen-RS), nosso entrevistado agora é o Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior.

Ele é Reitor do Seminário Cristo Rei, de Cuiabá (MT), além de ser o único brasileiro que é consultor do Vaticano para assuntos de catequese. Tornou-se muito conhecido nos últimos anos pela sua participação frequente na programação da Canção Nova e pelo site que mantém -http://www.padrepauloricardo.org -, onde podemos acessar suas palestras e artigos.

Segue a entrevista abaixo...

1. Como V. Revma vê hoje a questão da Liturgia no Brasil e no mundo?

Nós estamos vivendo uma fase nova na história da Liturgia. Nós tivemos durante todo o século 20 um movimento litúrgico extraordinário de retorno as fontes; um progresso imenso no estudo da liturgia. Depois, com execução da Reforma Litúrgica do vaticano II, houve infelizmente uma aplicação muito errada da Reforma. Ela foi, de certa forma, positiva, mas muito mal aplicada. Agora vivemos uma terceira fase: a fase em que retomamos aquilo que poderíamos chamar de o “bonde perdido", retomamos o "trem perdido". Nós estávamos no movimento litúrgico, que foi interrompido por um processo revolucionário da década de 70 e 80, e agora estamos retomando aquele processo litúrgico anterior, para colher os frutos de um verdadeiro movimento litúrgico. É isso que o Papa Bento XVI, pelo menos espera colocar em ato, e aquilo que ele prevê no seu livro "introdução ao Espírito da Liturgia".


2. O saudoso Papa João Paulo II, na sua encíclica Ecclesia de Eucharistia, falava de "sombras" no modo com a Santa Missa é celebrada. Como interpretar essa expressão?


A meu ver essa sombras são exatamente isso: são frutos da má aplicação da Reforma Litúrgica. Nós vemos que, de alguma forma, entrou dentro do processo litúrgico da Igreja Católica uma mentalidade estranha e alheia a Igreja, que nós poderíamos chamar de mentalidade revolucionária, onde as pessoas fazem a Liturgia subjetiva, a partir dos seus gostos, de suas veleidades subjetivas. O Papa alerta para isso, e é necessário então nós retornarmos a forma tradicional da Igreja celebrar a Liturgia, mesmo que tenhamos os ritos litúrgicos do Vaticano II. Mas a Reforma Litúrgica do Vaticano II deve ser executada em sintonia com a tradição de 20 séculos.

3. Qual a importância do latim na celebração litúrgica? E do canto gregoriano?

A Liturgia só tem sentido quando ela é recebida do passado. Nós precisamos compreender que um rito litúrgico é algo recebido da tradição, recebido dos nossos pais. E é essa a importância do latim e do canto gregoriano. Ao se fazer orações em latim na Liturgia e ao se cantar cantos que foram cantados por gerações e gerações de cristãos antes de nós, nós tomando a consciência de que estamos vivendo algo que não foi inventado por nós, mas que nos une a uma multidão de santos e santas que viveram antes de nós, e que santificarem com aqueles textos e com aqueles cantos; se eles chegaram a se salvar e estar junto de Deus, também nós podemos fazer.

4. É possível resgatar um uso mais regular da língua latina mesmo na forma ordinária do Rito Romano, ou seja, na forma aprova pelo Papa Paulo VI? Como dar os passos para isso?

Não somente é possível como é desejável. Aliás, o próprio Papa Paulo VI e o Concílio Vaticano II sua constituição Sacrassanctum Concilium pediam isso: que os fiéis soubessem recitar e cantar orações em latim e usando o canto gregoriano. Agora, é evidente que tudo isso pode e deve ser feito dentro um processo, de um movimento gradual. Eu costumo sempre dizer que eu odeio tanto revoluções que as rejeito até quando elas são a meu favor. Uma revolução que de repente coloque tudo em latim e em gregoriano seria tão detestável quando a revolução da qual nós estamos querendo nos livrar. O povo de Deus não se move por decreto. O povo de Deus deve ser respeitado e educado lenta e gradualmente, trazido para a plenitude da fé católica e da beleza da Liturgia Católica, porque do contrario seria violentar o povo.

5. Quanto a Santa Missa “orientada” ou celebrada em “Versus Deum” (“Voltados para Deus”, isto é, com sacerdotes e fiéis voltados para a mesma direção), que o Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, recomenda que se faça no seu livro “Introdução ao Espírito da Liturgia”: essa disposição pode ser utilizada mesmo na forma do Rito Romano aprovada pelo Papa Paulo VI? Qual o seu significado?”

Na verdade as rubricas do Missal aprovado por Paulo VI foram escritas pensando nas duas possibilidades: a Missa voltada para o povo ou a Missa voltada para Deus (também chamada de Missa orientada, já que as Igrejas eram construídas de tal forma que o sacerdote pudesse celebrar voltado para o lugar onde nasce o sol). Muita gente fala da Missa voltada para o povo como sendo uma das “conquistas” do Vaticano II. A verdade é que os documentos do Concílio nem tratam do assunto.

A Missa voltada para o povo foi uma adaptação introduzida pelos padres alemães celebravam assim em seus acampamentos com jovens e escoteiros. Isto que era uma situação completamente excepcional tornou-se regra quando da implantação da Reforma Litúrgica.

Na minha opinião a Missa voltada para o povo não tem nenhum fundamento teológico, psicológico ou pastoral, se considerarmos a verdadeira natureza da Missa. Sendo assim, a situação atual rompe completamente com a tradição de dois mil anos. Não há nenhum outro Rito Litúrgico que tenha este tipo de prática.

A Missa orientada tem a importante “missão” de tirar o sacerdote e colocar Deus no centro da celebração. Todos voltados para a mesma direção, sacerdote e assembléia, dirigem-se como Igreja para Deus e oferecem a ele o Divino Sacrifício Eucarístico.

O que fazer então? Segundo o Papa Bento XVI, no livro que você citou, a caminho de retorno, sem que o povo sofra violências, é colocar a cruz de volta no centro do altar. Desta forma o sacerdote celebrante pode olhar claramente para o Crucificado durante a Liturgia Eucarística e não dar ao povo a errada impressão de que está falando com a assembleia.

6. O Santo Padre Bento restaurou, recentemente, a Comunhão de joelhos e na boca em suas Missas celebradas em Roma. Muitos se surpreenderam com essa atitude do Papa. O que pensar disso?

Eu devo confessar uma coisa: eu, durante vários anos como padre, insisti terminantemente que as pessoas comungassem na mão, devido aos meus estudos. Eu estudei as catequeses mistagógicas de São Cirilo, e lá ele ensina a comungar na mão. E eu insistia nisso, porque afinal das contas, são os Santos Padres que estão nos ensinando; é a volta às fontes. E eu insistia nisso, e ficava até com raiva quando um seminarista vinha comungar na boca. Mas vejam: eu sou canonista, e também sabia que o seminarista tinha o direito de receber a comunhão na boca. Por isso, eu não proibia, só ficava incomodado. Tudo isso era o que eu lutava e cria até a pouco tempo atrás, até que Bento XVI me deu uma rasteira.

Bento XVI começou a dar a comunhão na Liturgia do Papa para os fiéis de joelhos, num genuflexório e na boca. Eu fiquei inicialmente chocado com aquilo, até que eu fui estudar. Por que ele é Papa! Se ele está tomando uma atitude, alguma razão tem. Então eu fui estudar quais são as razões, e como é que surgiu a comunhão na mão.

A primeira coisa que me espantou: descobri que a comunhão na mão - que é algo que podemos fazer, porque foi permitido – ela é uma excessão, segundo a lei canônica; ou seja, canonicamente a forma normal, comum, corriqueira , de se comungar, é na boca. É isso que foi colocado na legislação por Paulo VI e está nas várias legislações de João Paulo II. Mas desde que Paulo VI concedeu a comunhão na mão, ela é claramente uma exceção, permitam-me a redundância, excepcionalíssima. Vamos ficar com a verdade: a atual legislação da Igreja diz que a comunhão normal é na boca.

No Missal de Paulo VI , quando ele foi aprovado em 1969 e 1970 – são as primeiras aprovações do Missal que nós celebramos – não existe nenhuma referência à comunhão na mão. A coisa surgiu depois. E investigando, eu descobri que nos países do Norte da Europa – Holanda, Alemanha... – o pessoal começou a comungar na mão por iniciativa própria, por desobediência. O Papa ficou sabendo, e o Vaticano disse: parem com isso! Mas o pessoal continuou. Então chegou uma hora em que, para não ter uma rebelião em massa, o Vaticano deu uma autorização as Conferências Episcopais – como a CNBB, aqui no Brasil, por exemplo – para que elas, se acharem oportuno, peçam permissão a Santa Sé e a Santa Sé então dá permissão para a Conferência receber a comunhão na mão; mas o normal continua sendo a comunhão na boca. E isso eu descobri lendo um livro de um Arcebispo que foi responsável por toda a Reforma Litúrgica: Dom Annibale Bugnini (La Riforma Liturgica 1948 – 1975, Roma: CVL). Foi ele o chefe da comissão responsável por elaborar o Missal que nós temos hoje. E isso ele disse claramente, é ele que narra; eu não ouvi isso de uma fofoca.

Quais são as razões de Bento XVI agora estar dando a comunhão na boca e de joelhos? O Papa já falou algumas vezes, quando ele era cardeal, e ultimamente ele tem falado através dos seus ajudantes. Portanto, as informações que vou passar aqui são de ajudantes do Papa, como seu mestre de cerimônias, Mons. Guido Marini; o ex-secretario da Congregação para o Culto Divino, Dom Ranjith, e o atual Prefeito da Congregação para o Culto Divino, cardeal Cañizares. O Papa acha que nós estamos correndo um risco muito grande de perder a devoção e a fé na Eucaristia. Infelizmente, em alguns lugares da Igreja, a Presença Real de Jesus na Eucaristia está se tornando uma piada: ninguém acredita mais.

São Cirilo de Jerusalém, em suas Catequeses Mistagógicas, recomendava aos seus fiéis que recebessem a comunhão nas mãos, e eu não estou recriminando isso: não é pecado receber a comunhão na mão. Mas São Cirilo não vive nos nossos dias, e eu duvido que na época dele houvesse esse tipo de escândalo que existe hoje, de gente que perdeu a fé na Presença Real de Jesus na Eucaristia. Isso é muito grave e nós precisamos fazer alguma coisa.

Não é uma questão de arqueologia litúrgica: se formos fazer arqueologia, é evidente que a comunhão na mão é muito mais antiga, é muito mais tradicional, do que a comunhão de joelhos e na boca. Mas o problema é que nós estamos em uma época em que a Presença Real de Jesus na Eucaristia está sendo esquecida, deixada de lado, e isso mudou a minha opinião: o Papa tem razão. Uma pessoa que recebe a comunhão de joelhos está se inclinando diante da Majestade de Deus: Deus é Deus, eu não sou nada. A pessoa que está recebendo a Comunhão na boca porque até a migalha mais pequenina da Hóstia Consagrada é preciosa; não somente é pedagógico, mas é verdadeiramente adoração, é verdadeira devoção eucarística, é verdadeira entrega a Deus.

Nos tempos que correm, nós não podemos nos dar ao luxo de arqueologismos litúrgicos. No primeiro milênio não tinha comunhão na boca, mas também não tinha herege que não acreditava na Presença Real de Jesus na Eucaristia. Nós estamos em um tempo diferente, e a Igreja evolui também na sua forma de demonstrar devoção a Cristo. Foi de mil anos para cá que começaram aquelas heresias que negaram a Presença de Cristo na Eucaristia que culminaram com a reforma protestante, que a negou de vez, e agora estamos nessa situação.

O Papa está nos dando exemplo de devoção eucarística, de verdadeira união a tradição da Igreja, mas uma tradição que sabe evoluir ao longo dos tempos; a Igreja sabe, como mãe e mestra, colocar o remédio certo na hora certa. E em um tempo em que, infelizmente, acontecem abusos e padres que perdem a fé na Presença de Jesus na Eucaristia, a Igreja como mãe e mestra quer renovar essa fé.

7. Em muitas dioceses há sacerdotes e ministros extraordinários que negam ministrar a Comunhão para o fiel que deseja comungar de joelhos, fazendo que os fiéis passem por situações constrangedoras e gerando escândalo. Como V. Revma. esse fenômeno, e o que fazer em relação a isso? 

Eu sou professor de Direito Canônico, e uma das observações que eu faço em aula para os meus alunos é o seguinte: que de uma forma geral os padres e bispos tem alergia ao Direito Canônico, exatamente porque 90% das normas canônicas estão lá para defender os fiéis, os sacramentos e a Palavra de Deus do alvitre dos padres e bispos. Então é evidente que aqueles que são os mais tolhidos pelo Direito Canônico são aqueles que mais recalcitram contra ele. No entanto, o Direito Canônico é necessário. A Igreja dá poder aos padres e bispos, e ao mesmo tempo se apressa em limitá-lo. Porque sabe que pelo nosso pecado original nós temos uma tendência de abusar do poder. Negar a comunhão ao fiel que legitimamente deseja recebê-la de joelhos e na boca é sem dúvida alguma um abuso de poder. Para resolver o problema, eu recomendo aos fiéis prudência e determinação. Prudência para ver se com 10 mil homens você consegue vencer um exercito que vem contra você com 20 mil. E determinação para não abandonar a reverencia e a sacralidade da forma com nós recebemos a Sagrada Comunhão. Penso que é importante que os fiéis insistam num movimento litúrgico em que o verdadeiro espírito da Liturgia seja resgatado, mesmo que esse movimento tenha que pacientemente esperar décadas.

8. E quanto à forma extraordinária do rito romano, a ”Missa Tridentina"? Como vê V. Revma. esse aumento dos pedidos dos leigos para que se a celebre?

O Missal anterior aquele que nós celebramos hoje é um Missal que santificou gerações e gerações de cristãos. As pessoas vêem que existe algo de errado na forma de se celebrar hoje em dia, e por isso tem a tendência de imputar essas dificuldades ao Missal de Paulo VI. Ou seja, "se a Liturgia vai mal, é porque o Missal de Paulo VI é mau". Eu respeitosamente discordo dessa opinião. Eu acho que se nós executássemos o Missal de Paulo VI, se nós obedecêssemos a ele, teríamos uma Liturgia esplendorosa e magnífica. O problema é que não o fazemos. Então existem muitos equívocos com relação ao Missal de Paulo VI. Nós vemos, por exemplo, na internet, com freqüência, abusos litúrgicos que são fotografados e colocados dizendo: “Vejam o Missal de Paulo VI!” Quando isso é incorreto, ou seja, aquilo não é o Missal de Paulo VI, aquilo é o abuso dele. Não posso imputar ao Missal de Paulo VI os atos daqueles que estão destruíndo este Missal. Agora, esses pedidos que aumentam cada vez mais de se celebrar a Liturgia conforme o Rito Extraordinário são pedidos de pessoas bem intencionadas que querem voltar a tradição da Igreja, e por isso devem ser valorizados e respeitados, ao mesmo tempo em que essas pessoas deveriam ser esclarecidas, para que se compreendesse que a atual situação de desrespeito da Liturgia não é devida ao Missal, mas exatamente a ausência de respeito ao Missal.

9. Dizem que nas dioceses e instituições que prezam pela Liturgia bem celebrada, de acordo com as normas liturgias, com incentivo ao canto gregoriano, ao latim, mesmo ao canto popular mais sóbrio, e mesmo em vernáculo celebrada de forma decorosa e solene, haveria um aumento de vocações. Isso é verdade e como podemos analisar este fenômeno?

Eu concordo com o falecido cardeal Hans Urs von Balthasar, que dizia que o homem moderno será atraído para Deus não tanto pela verdade da fé, ou pela bondade do caminho moral cristão, mas pela beleza. Cita-se com freqüência a frase de Dostoiévski “a beleza salvará o mundo”. De alguma forma, é verdade que o homem moderno, se sente muito mais atraído para Deus, para a verdade da fé, e para a bondade do caminho cristão, se esta verdade e esta bondade forem apresentadas de forma bela. Este é o caminho que atrairia muitas pessoas a Deus. E atraindo essas pessoas com a celebração litúrgica bela, bonita e decorosa, certamente, entre elas, haveria muitas vocações. Eu não tenho duvida que uma celebração conforme a tradição da Igreja é fonte de vocações para a Igreja, e que celebrando mal, teremos menos padres, celebrando bem, teremos numerosas vocações.

10. O clero brasileiro percebe a importância do latim, do canto gregoriano, e assim por diante?

É necessário distinguir. Existe uma nova geração que está acordando para isto. A nova geração de padres e seminaristas está resgatando aquilo que a geração anterior jogou fora. Infelizmente esses padres jovens e seminaistas não tem nem poder e nem influencia suficiente para mudar substancialmente o contexto eclesial no qual eles vivem. Mas chegará o dia em que eles estará amadurecidos e prontos para assumir o comando, e então veremos uma situação melhor. Por isso eu diria que o clero brasileiro, de alguma forma, está dividido entre uma geração mais antiga, que viveu a revolução estudantil de 1968, os desmandos da aplicação inicial da reforma litúrgica, a revolução sexual, o secularismo, e todo o tipo de reação adversa ao cristianismo e à Igreja. Esta geração mais antiga é a geração que nos governa atualmente, eles são muito temerosos e resistem a querer enfrentar o mundo moderno. Já a geração mais nova é de uma outra lavra. Eles já nasceram dentro do secularismo, e portanto o rejeitam e não tem medo de enfrentá-lo. O único problema desta nova geração é que muitas vezes ela não tem formação e nem orientação suficiente para notar a sua vocação de transformação e reforma da atual situação de Igreja.

11. Como reitor de seminário, quais os meios que V. Revma. vê para formar seminaristas totalmente ortodoxos em matéria litúrgica

Existem inúmeros meios. Uma das coisas que nós fazemos em nosso seminário é não supor que o rapaz que acaba ingressar no seminário é cristão e é católico. A fé ela deve ser transmitida. Então é necessário receber o candidato que ingressa no seminário transmitindo a ele a fé da Igreja, o Catecismo da Igreja Católica, a Tradição da Igreja através de um conhecimento da história da Igreja, sobretudo da história da Igreja antiga, dos Santos Padres e dos primeiros concílios, transmitir a ele o sentido da correta interpretação das Sagradas Escrituras na Tradição da Igreja, e finalmente transmitir também o respeito as normas e aos textos litúrgicos. Se nós edificarmos esse rapaz em todo esse contexto geral de eclesialidade, ele irá, depois, obedecer as normas litúrgicas. A dificuldade que eu vejo sempre na obediência dos padres jovens é muitas vezes a dificuldade da ignorância. Eles não sabem o valor daquilo que estão jogando fora.

12. V. Revma. tem enfrentado resistências em algum esses sentidos? Como resolvê-las? Vê algum sinal de esperança?

A resistência nós a encontramos quando tentamos enfrentar o problema sem pedagogia e sem respeitar a história acontecida até agora. Vou tentar ser mais claro: em alguns lugares do Brasil, por exemplo, os padres insistem ainda em celebrar a Missa só de estola, sem casula. Ora, se eu chego e tento impor aquele padre o uso da casula, eu devo considerar primeiro o fato que se ele está usando somente estola é porque ele foi formado assim. E se eu for buscar a raiz, eu irei ver que essa desobediência tem origem na norma que foi dada pela Santa Sé permitindo ao clero brasileiro na década de 70 de celebrar a Missa apenas com túnica e estola. Portanto, é uma situação que foi instaurada pela própria autoridade da Igreja. Se agora eu tenho um decreto de Roma que manda, mais uma vez, que os padres abandonem este uso e comecem a usar a casula, eu tenho que considerar esta história e ter a paciência histórica de levar as pessoas à compreensão desta mudança. Então, as resistências muitas vezes são fortes quando nós não levamos em conta o fato de que nós temos toda uma geração que não recebeu uma formação adequada exatamente por causa dos próprios documentos e orientações que receberam. Portanto, talvez seja necessário ter paciência com esta geração mais antiga e esperar por uma geração nova formada de uma forma diferente.

13. Como V. Revma. enxerga a grande migração que muitos leigos, inclusive jovens, fazem em direção a grupos que, embora conservem a liturgia tradicional, a Missa Tridentina, não estão em plena comunhão com Roma? O que fazer para solucionar o problema?

Em primeiro lugar eu vejo que talvez o grupo não seja tão grande assim, pelo menos aqui no Brasil. Em segundo lugar, a solução para uma revolução nunca é uma outra revolução. A solução para uma revolução de esquerda não é uma revolução de direita. E o que eu entendo por revolução? A mente revolucionária é aquela cabeça de adolescente que está convencida de que sabe como o mundo deve ser, e por isso, o mundo está errado. Quando os jovens do movimento hippie viram o mundo dos seus pais e contestaram e rejeitaram aquele mundo, estavam sendo revolucionários. Quando o jovem tradicionalista de hoje vê o mundo dos seus pais, e o rejeita completamente, também está sendo revolucionário. Qual seria a solução? A solução é sempre vivermos num mundo real com suas dificuldades e contradições e tentar combater a maldade que nós encontramos no dia-a-dia sem destruí-lo. Sendo mais concreto: sair da Igreja para salvar a Igreja já foi tentado por Lutero e deu errado. É necessário abraçar a Igreja real, como ela sempre existiu em 2000 anos. Uma Igreja com membros cheios de pecados, falhas e traições, embora a Igreja seja santa e imaculada. A fidelidade à Igreja é parecida com a fidelidade de um casal. Uma comparação semelhante é feita por São Paulo em sua carta aos Efésios (6, 32). O casal precisa estar pronto para perdoar o pecado um do outro, sem desistir um do outro. O jovem que se divorcia da Igreja porque não suporta os defeitos dos seus membros está abandonando uma Igreja real para viver numa Igreja ideal que a meu ver não passa da expressão de uma revolução de direita.

14. O Cardeal Castrillón Hoyos insiste na chamada "ars celebrandi", expressão que é frequentemente utilizada também pelo Santo Padre Bento XVI. Em que ela consiste? Como colocá-la em prática?

A Liturgia é chamada historicamente de teatro. Para nós modernos, o teatro é sempre algo falso, algo sem consistência de sinceridade. Por isso, falar de arte de celebrar pode parecer a insistência numa pantomina e numa hipocrisia, mas não é isso. A Liturgia é teatro n sentido de drama. Nela, acontece o drama de nossa salvação. Nela, existe um conflito de liberdades: a liberdade divina e soberana, como protagonista principal desse grande drama, e a liberdade humana que deve se configurar a Deus. Nesse sentido, toda a historia da salvação é um drama, um teatro. A arte de celebrar é a entrada do ser humano todo neste drama extraordinário que a própria Liturgia chama de duelo entre a vida e a morte, é da sequência Pascal, “mors et vita duelo, conflixerunt mirando”. Neste contexto, a arte de celebrar significa uma entrada da pessoa como um todo dentro de um drama espiritual e isto acontece através dos símbolos litúrgicos que são também símbolos artísticos.

15. Quais são as causas, na visão de V. Revma., de tanto desleixo para com a Liturgia no Brasil? A Teologia da Libertação, o modernismo, condenado por São Pio X, bem como o marxismo cultural e a Revolução, têm que parcela de culpa? 

Sem duvida alguma, aquilo de negativo que nós encontramos na atual vida litúrgica do Brasil, é fruto de um processo revolucionário. Mais uma vez eu gostaria de enfatizar o que é a mentalidade revolucionária:a mente revolucionário é aquela que está muito convencida da verdade das suas idéias, e quer impor ao mundo as suas idéias. Os liturgos revolucionários no Brasil tem a tendência de confeccionar uma liturgia mental, o ideal daquilo que seria a Liturgia para eles. E então aplicar essa idéia de Liturgia na prática. Ora, pouco importa que a matriz revolucionária desses pensamentos seja marxista, da Teologia da Libertação, modernista ou liberal; trata-se sempre de um único e mesmo mecanismo. O liturgista se propõe como demiurgo da Liturgia. Ele faz, ele cria, nesse sentido esses liturgistas que pretendem ser tão democráticos, na verdade, não passam de déspotas porque impõem a assembléia litúrgica as suas idéias de Liturgia. Nada de mais anti-democratico do que um liturgista revolucionário ou uma equipe litúrgica revolucionaria, que é uma pequena elite que impõe ditatorialmente ao povo de Deus as suas concepções de Liturgia. E o Direito Canônico diz claramente que o povo de Deus tem direito de receber dos seus Sagrados Pastores a Liturgia da Igreja.

16. Felizmente, hoje alguns excelentes escritos litúrgicos tem sido publicados ou chegando ao Brasil em português, como "Introdução ao Espírito da Liturgia", do Cardeal Ratzinger (hoje Papa Bento XVI), e "Dominus Est - É o Senhor!", de Dom Athanasius Schneider. Por que há essa dificuldade de tais materiais chegarem ao Brasil, e como avalias em geral os escritos litúrgicos publicados aqui?

Como eu me referi em uma outra pergunta, nós atualmente somos governados, tanto no âmbito político como no âmbito eclesial, pela geração que viveu as grandes mudanças da década de 70. A maior parte das pessoas dessa geração ou são plenamente revolucionarias ou tem um medo imenso de enfrentar a mentalidade revolucionaria. Por isso, a tendência de selecionar os títulos que são publicados no Brasil, já que a maior parte dos editores pensa ou que esses títulos são inoportunos, porque são editores revolucionários, ou que esses títulos não irão vender e que não há interesse geral porque são editores que já capitularam diante da pressão revolucionária. Um dos lugares onde as pessoas mais corajosas encontram um fórum livre, no qual podem ter acesso a esse tipo de literatura, é a internet. Embora muitos livros não estejam disponíveis em sua totalidade na internet, pode-se partilhar o conteúdo desses livros de forma indireta, através de resumos e resenhas.

17. Como V. Revma. avalia que o Santo Padre Bento XVI, em sua proposta de “reforma da reforma”, tem sido apoiado pela demais autoridades litúrgicas de Roma, Cardeal Cañizares, Cardeal Arinze, como Dom Guido Marini, Mons. Ranjith?

Essas pessoas citadas são todas pessoas de confiança direta do Santo Padre e que receberam o encargo de por em ação esse novo movimento litúrgico. Muitas pessoas reclamam da lentidão com que Roma estaria realizando esta Reforma da Reforma, mas eu creio que a lentidão faz parte desse processo. Não é necessário dizer que qualquer decreto vindo de Roma não tem efeito algum se não houver uma recepção na base, e que portanto, mais importante do que exarar decretos, é por em ação um movimento, principalmente entre os jovens, onde a sensibilidade para com a Liturgia da Igreja e a Tradição seja mais presente. É exatamente isto que esses homens estão fazendo.

18. Alguns padres mais novos começam a vestir batina, a usar clergyman, a celebrar com decoro, a se interessar pelo latim, pela forma ordinária bem celebrada (inclusive com latim e canto gregoriano), pela Missa Tridentina. Também leigos bem formados estão despertando e tomando iniciativas apostólicas para promover a Liturgia de acordo com o que nos manda a Santa Igreja e conforme a tradição da Igreja. O que diz V. Revma. disso tudo?

Vejo com bons olhos porque vejo a boa vontade desses jovens. Embora deva admitir que é necessário que toda essa boa vontade seja acompanhada de uma boa formação espiritual. Porque toda esta embalagem precisa ser acompanhada de conteúdo. Quanto eu era seminarista, no final da década de 80, já se notava na Europa uma tendência de os seminaristas serem mais conservadores do que os seus próprios formadores dentro dos seus seminários. No entanto, muitas vezes, por falta de formação espiritual, de uma vida ascética de disciplina, esta boa vontade dos seminaristas caiu na vazies de uma vida incoerente com aquilo que se propunha. Penso que é muito importante que o padre ame a sua batina, mas mais importante ainda é que ele honre a sua batina. Porque em alguns lugares tem tido um efeito devastador jovens sacerdotes se vestirem com a tradição e levarem uma vida moral em completo desrespeito com a Tradição. Por isso, vejo com bons olhos a boa vontade desses padres jovens e seminaristas, e ao mesmo tempo vejo com apreensão porque penso que é necessário dar a eles uma formação espiritual e ascética que corresponda a essa boa vontade. É aquilo que eu tentei fazer quando escrevi o meu livro sobre a Terapia das Doenças Espirituais.

19. Aos que querem a Missa mais sóbria, de acordo com as normas, com incenso, latim, paramentos bonitos, logo se lhes acusam de "rubricistas" ou de "obtusos", "antiquados" e até de "fariseus". Dizem que a Missa tem que ser "alegre", com improvisação, sem se prender a fórmulas. Alegam que pra Jesus, “o que importa é o coração, é o interior”. Como responder a tudo isso?

“Unum facere et alium non omittere”, Fazer uma coisa e não omitir a outra. Ou seja, observar as normas litúrgicas e obedecê-las não é algo que está divorciado com o coração. É necessário escolher as duas coisas. Obediência das normas e soprar sobre estas normas, que são letra morta, o Espírito com o qual elas foram elaboradas. O espírito que é uma verdadeira tradição espiritual da Igreja. Por isso, essa dicotomia é uma falsa alternativa. Seria como pedir a uma pessoa que escolhesse entre o corpo e a alma, dizendo a ela ou ela fica com a alma ou ela fica com o corpo. A única resposta possível é dizer: eu não escolho, eu fico com os dois. Eu fico com a norma litúrgica e fico com o coração.

20. Vemos no Brasil que, após décadas de predomínio do pensamento da Teologia da Libertação, uma nova tomada de consciência por parte de muitos fiéis no que diz respeito a Santa Missa como Renovação do Sacrifício do Calvário, a Presença Real de Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento, e culto de adoração devido a Ele, e assim por diante. Porém, mesmo em alguns desses meios onde está ocorrendo esta tomada de consciência (como em alguns ambientes da Renovação Carismática Católica), ainda há uma resistência em celebrar conforme determinam as normas litúrgicas e valorizar realmente o esplendor e a solenidade segundo a tradição litúrgica. Qual a causa dessa contradição? Como resolver?

Existe uma idéia equivocada que pensa que o Evangelho é incompatível com a lei, ou seja, que o Espírito sopra onde quer e que uma lei só iria matar a verdadeira fidelidade ao Evangelho de Cristo. Mas esse idéia é equivocada. O Evangelho de Cristo é uma Palavra que me vincula. Quanto eu dou o meu assentimento de fé a Cristo, eu estou necessariamente vinculado a Palavra Dele, e portanto, na própria natureza do Evangelho e da resposta de fé, existe algo que me vincula e que me limita. Eu não posso trair a Palavra de Cristo. Eu não possa transformá-la em uma outra Palavra. Eu preciso aceitá-la, ser fiel a ela e transmiti-la como eu recebi. Isto que acontece com a Palavra deve acontecer também com o Sacramento. O que seria de nós, se nós disséssemos que eu preciso transmitir a Palavra de Deus com liberdade e criatividade? Terminaria que no curso de uma década, a Palavra de Deus pregada já não seria mais a Palavra de Cristo; talvez não seria nem necessário esperar uma década. A mesma coisa acontece com o Sacramento. O que me garante que o Sacramento que eu hoje celebro é o mesmo Sacramento do Cristo de 2000 anos atrás? É simplesmente o fato de que Ele deixou um Sacramento. E esse Sacramento me vincula, e eu preciso fazer de tudo para que esse Sacramento seja transmitido ao longo dos séculos tal qual ele é. Por isso, o Espírito, a liberdade e o Evangelho não são incompatíveis com a lei, a tradição e o vinculo necessário para que a Palavra e o Sacramento de Cristo seja os mesmos através dos séculos.

21. Um futuro promissor para a liturgia no Brasil é visto por V. Revma. a curto prazo? Quais os erros que devem ser evitados nesse trabalho de "reforma da reforma"?

Se nós olharmos para a história da Igreja, nós notaremos que nunca aconteceu aqui na terra o paraíso da Liturgia perfeita. Penso que é importante não esperar esse paraíso. O que nós podemos esperar para o nosso futuro é que nós tenhamos força e decisão moral o suficiente de proteger a Liturgia e os Sacramentos da Igreja, de lutar para que os Sacramentos e a Liturgia não sejam destruídos, mas celebrados conforme a Tradição, conforme aquilo que Jesus e os Apóstolos deixaram. Penso que é esse o futuro que nós podemos desejar para o Brasil. Também penso que não é possível prever o futuro, já que, em todo o futuro, existe uma liberdade humana, e dependerá de nós que esse futuro seja melhor do que aquilo que vivemos hoje.

22. Por fim, uma palavra de incentivo aos leitores do Salvem a Liturgia, e o seu pensamento a respeito do nosso Apostolado.

Penso que é de extrema importância colocar a Liturgia no centro dos debates e da vida eclesial. O Papa Bento XVI escolheu a Liturgia como a grande contribuição do seu pontificado. Aos leitores do salvem a Liturgia, eu gostaria de dizer que continuem amando e fazendo o bem a Igreja, da forma que estão fazendo, porque se salvarmos a Liturgia, seremos salvos por ela.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Missa Afro = Inculturação?

Se fizermos uma pesquisa rápida no You Tube com os termos “Missa Afro”, teremos umretorno de várias páginas de vídeos, dentre os quais, destaquei, com indignação, os vídeos abaixo.
Os defensores da chamada “Missa Afro” dizem ser uma inculturação a fim de contemplar a cultura afro-brasileira, mas, e, nisso concordo com D. Estêvão Bettencourt, “o espetáculo daí resultante não atingiu a sua finalidade, que era elevar as mentes a Deus em atitude de oração; lembrou muito mais os festejos folclóricos do nosso povo, associados a Carnaval e a cultos não cristãos”.
A inculturação tem como finalidade transmitir as verdades do evangelho, apresentando-as de forma que os destinatários as possam compreender e viver, aproveitando as expressões culturais de povos não-europeus, que guardam, assim, sua identidade. Não é tarefa das mais fáceis, podendo fácilmente descambar para o abuso, como se pode verificar dos vídeos.
Inculturar é assumir, dentre os elementos da cultura (linguagem, gastos, símbolos…) de cada povo, aqueles que possam ser veículos fiéis e dignos da fé católica, não deteriorada nem adulterada. (…)Quaisquer que sejam os gestos e sinais aplicados à Liturgia, deverão sempre contribuir para que se levem as mentes a Deus numa atitude de oração e adoração. Caso este objetivo não seja atingido, mas, ao contrário, se provoque dispersão e perplexidade entre os fiéis, os símbolos não podem ser considerados autênticos.*
Não, o Concílio Vaticano II não chancela a – desculpem o termo, mas é o que cabe na minha indignação – palhaçada que são as Missas Afro:
“A Igreja não deseja impor na Liturgia uma forma rígida e única para aquelas coisas que não dizem respeito à fé (para aquelas coisas que dizem respeito a fé, não pode haver flexibilização) ou ao bem de toda a comunidade. Antes, cultiva e desenvolve os valores e os dotes de espírito das várias nações e povos. O que quer que nos costumes dos povos não esteja ligado indissoluvelmente a superstições e erros, Ela o examina com benevolência e, se pode, o conserva intato. Até, por vezes, admite-o na própria Liturgia, contanto que esteja de acordo com as normas do verdadeiro e autêntico espírito litúrgico (ou seja, o que é superstição, erro e contrário à fé e ao espírito litúrgico, não pode ser inserido na liturgia !)” (Constituição Sacrosanctum Concilium n° 38).
Importante ainda destacar o que diz a Instrução Varietates Legitimae, que trata do assunto (n° 30 e 37):
Para preparar una inculturación de los ritos, las Conferencias episcopales deberán contar con personas expertas tanto en la tradición litúrgica del rito romano como en el conocimiento de los valores culturales locales. Hay que hacer estudios previos de carácter histórico, antropológico, exegético y teológico. Además, hay que confrontarlos con la experiencia pastoral del clero local, especialmente el autóctono . El criterio de los «sabios» del país cuya sabiduría se ha iluminado con la luz del Evangelio, se rá también muy valioso. Asimismo la inculturación tendrá que satisfacer las exigencias de la cultura tradicional aun teniendo en cuenta las poblaciones de cultura urbana e industrial.
Las adaptaciones del rito romano, también en el campo de la inculturación, dependen únicamente de la autoridad de la Iglesia. Autoridad que reside en la Sede apostólica, la ejerce por me dio de la Congregación para el culto divino y la disciplina de los sacramentos (Somente a Santa Sé, pela Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos pode autorizar a inculturação) (78); y, en los límites fijados por el derecho, en las Conferencias episcopales (79) y el obispo diocesano (80). «Nadie, aunque sea sacerdote, añada, quite o cambie cosa alguna por iniciativa propia en la liturgia»** (81). La inculturación, por tanto, no queda a la iniciativa personal de los celebrantes, o a la iniciativa colectiva de la asamblea (82) (Ou seja, não é assim, à la vonté !).
As Missas Afro que se vêem aos montes por aí não cumprem nenhum dos requisitos para a inculturação, não podendo ser consideradas como tal. São fruto do desconhecimento do verdadeiro espírito da liturgia e da desobediência das normas prescritas pela Santa Sé.
Voltando à pesquisa no YouTube, o que mais revolta é que muitos dos vídeos postados o foram por padres, ou seja, aqueles que deveriam ser os guardiões da Sagrada Liturgia são os primeiros a promover os abusos. Nesse Ano Sacerdotal, rezemos pelos nossos sacerdotes e cuidemos dos nossos seminários, para que sejam formados sacerdotes mais conscientes de sua responsabilidade com a Liturgia.
*Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS” – D. Estevão Bettencourt, osb. – Nº 403 – Ano 1995 – Pág. 560
**Ninguém, ainda que seja sacerdote, adicione, retire ou modifique coisa alguma por iniciativa própria na liturgia.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

RECORDANDO: DIÁLOGO DO PAPA BENTO XVI COM OS SACERDOTES

DIÁLOGO DO PAPA BENTO XVI
COM OS SACERDOTES
Praça de São Pedro
Quinta-feira, 10 de Junho de 2010


América:
P. – Beatíssimo Padre, sou Pe. José Eduardo Oliveira e Silva e venho da América, exactamente do Brasil. A maior parte de nós aqui presentes está comprometida na pastoral directa, na paróquia, e não só com uma comunidade, mas por vezes já somos párocos de várias paróquias, ou de comunidades particularmente vastas. Com toda a boa vontade procuramos enfrentar as necessidades de uma sociedade muito mudada, já não totalmente cristã, mas damo-nos conta de que o nosso "fazer" não é suficiente. Para onde ir, Santidade? Em que direcção?

R. – Queridos amigos, antes de tudo gostaria de expressar a minha grande alegria porque estão reunidos aqui sacerdotes de todas as partes do mundo, na alegria da nossa vocação e na disponibilidade para servir o Senhor com todas as nossas forças, neste nosso tempo. Em relação à pergunta: estou deveras consciente de que hoje é muito difícil ser pároco, também e sobretudo nos países de antiga cristandade; as paróquias tornam-se cada vez mais vastas, unidades pastorais... é impossível conhecer todos, é impossível fazer todos os trabalhos que se esperam de um pároco. E assim, realmente, perguntamo-nos para onde ir, como o senhor disse. Mas em primeiro lugar gostaria de dizer: sei que existem tantos párocos no mundo que dedicam realmente toda a sua força pela evangelização, pela presença do Senhor e dos seus Sacramentos, e a estes fiéis párocos, que trabalham com todas as forças da sua vida, do nosso ser apaixonados por Cristo, gostaria de dizer um grande "obrigado", neste momento. Disse que não é possível fazer tudo o que se deseja, tudo o que talvez se deva fazer, porque as nossas forças são limitadas e as situações são difíceis numa sociedade cada vez mais diversificada, mais complicada. Penso que, sobretudo, é importante que os fiéis possam ver que este sacerdote não faz apenas um "job", horas de trabalho, e depois está livre e vive só para si mesmo, mas é um homem apaixonado de Cristo, que traz em si o fogo do amor de Cristo. Se os fiéis vêem que ele está cheio da alegria do Senhor, compreendem também que não pode fazer tudo, aceitam os limites e ajudam o pároco. Este parece-me o aspecto mais importante: que se possa ver e sentir que o pároco realmente se considera chamado pelo Senhor; que está cheio de amor ao Senhor e aos seus. Se isto existe, compreende-se e pode-se ver também a impossibilidade de fazer tudo. Por conseguinte, estar cheios da alegria do Evangelho com todo o nosso ser é a primeira condição. Depois devem fazer-se opções, ter a prioridade, ver quanto é possível e quanto é impossível. Diria que conhecemos as três prioridades fundamentais: são as três colunas do nosso ser sacerdotes. Primeiro, a Eucaristia, os Sacramentos: tornar possível e presente a Eucaristia, sobretudo dominical, na medida do possível, para todos, e celebrá-la de modo que se torne realmente o visível acto de amor do Senhor por nós. Depois, o anúncio da Palavra em todas as dimensões: do diálogo pessoal à homilia. O terceiro aspecto é a "caritas", o amor de Cristo: estar presentes para quem sofre, para os pequeninos, para as crianças, para as pessoas em dificuldade, para os marginalizados; tornar realmente presente o amor do Bom Pastor. E depois, uma prioridade muito importante é também a relação pessoal com Cristo. No breviário, a 4 de Novembro, lemos um bonito texto de São Carlos Borromeu, grande pastor, que se entregou verdadeiramente a si mesmo, e que nos diz a nós, a todos os sacerdotes: "não descuides a tua alma: se a tua própria alma for descuidada, também não podes dar aos outros quanto deverias. Por conseguinte, também deves ter tempo para ti mesmo, para a tua alma", ou, por outras palavras, a relação com Cristo, o diálogo pessoal com Cristo é uma prioridade pastoral fundamental, é condição para o nosso trabalho para os outros! E a oração não é algo marginal: a "profissão" do sacerdote é precisamente rezar, também como representante do povo que não sabe rezar ou não encontra tempo para o fazer. A oração pessoal, sobretudo a Oração das Horas, é alimento fundamental para a nossa alma, para toda a nossa acção. E, por fim, reconhecer os nossos limites, abrir-nos também a esta humildade. Recordemos uma narração de Marcos, no capítulo6, onde os discípulos estão "stressados", querem fazer tudo, e o Senhor diz: "Vamos embora, repousai um pouco" (cf. Mc 6, 31). Também isto é trabalho – diria – pastoral: encontrar e ter a humildade, a coragem de repousar. Portanto, penso que a paixão pelo Senhor, o amor do Senhor, nos mostra as prioridades, as escolhas, nos ajuda a encontrar o caminho. O Senhor ajudar-nos-á. Obrigado a todos vós!


África
P. – Santidade, sou Mathias Agnero e venho da África, exactamente da Costa do Marfim. Vossa Santidade é um Papa-teólogo, enquanto nós, quando conseguimos, lemos apenas alguns livros de teologia para a formação. Contudo, parece-nos que se criou uma ruptura entre teologia e doutrina e, ainda mais, entre teologia e espiritualidade. Sente-se a necessidade de que o estudo não seja só académico mas alimente a nossa espiritualidade. Sentimos a necessidade disto no próprio ministério pastoral. Por vezes a teologia não parece ter Deus no centro e Jesus Cristo como primeiro "lugar teológico", mas tem ao contrário os gostos e as tendências difundidas; e a consequência é o proliferar de opiniões subjectivas que permitem o introduzir-se, também na Igreja, de um pensamento não católico. Como podemos não nos desorientar na nossa vida e no nosso ministério, quando é o mundo que julga a fé e não o contrário? Sentimo-nos "descentrados"!

R. – Obrigado. O senhor focou um problema muito difícil e doloroso. Há realmente uma teologia que quer ser académica sobretudo, parecer científica e esquece a realidade vital, a presença de Deus, a sua presença entre nós, o seu falar hoje, não só no passado. Já São Boaventura, no seu tempo, distinguiu duas formas de teologia; disse: "há uma teologia que provém da arrogância da razão, que quer dominar tudo, que faz passar Deus de sujeito para objecto que nós estudamos, enquanto deveria ser sujeito que nos fala e nos guia". Há realmente este abuso da teologia, que é arrogância da razão e não alimenta a fé, mas obscurece a presença de Deus no mundo. Depois, há uma teologia que quer conhecer mais por amor ao amado, é estimulada pelo amor e guiada pelo amor, quer conhecer mais o amado. Esta é a verdadeira teologia, que vem do amor de Deus, de Cristo e quer entrar mais profundamente em comunhão com Cristo. Na realidade, as tentações, hoje, são grandes; sobretudo, impõe-se a chamada "visão moderna do mundo" (Bultmann, "modernes Weltbild"), que se torna o critério de quanto seria possível ou impossível. E assim, precisamente com este critério que tudo é como sempre, que todos os acontecimentos históricos são do mesmo género, excluiu-se precisamente a novidade do Evangelho, excluiu-se a irrupção de Deus, a verdadeira novidade que é a alegria da nossa fé. O que fazer? Aos teólogos eu diria antes de mais: tende coragem. E gostaria de manifestar o meu grande obrigado também aos numerosos teólogos que fazem um bom trabalho. Existem os abusos, sabemo-lo, mas em todas as partes do mundo existem muitos teólogos que vivem verdadeiramente da Palavra de Deus, se alimentam da meditação, vivem a fé da Igreja e querem ajudar para que a fé esteja presente no nosso hoje. A estes teólogos gostaria de dizer um grande "obrigado". E diria aos teólogos em geral: "não tenhais medo deste fantasma da cientificidade!". Eu sigo a teologia desde 1946: comecei a estudá-la em Janeiro desse ano e portanto vi quase três gerações de teólogos, e posso dizer: as hipóteses que naquele tempo, e depois nos anos 60 e 80 eram as mais novas, absolutamente científicas, quase dogmáticas, entretanto envelheceram e já não são válidas! Muitas delas parecem quase ridículas. Portanto, ter a coragem de resistir à aparente cientificidade, de não se submeter a todas as hipóteses do momento, mas pensar realmente a partir da grande fé da Igreja, que está presente em todos os tempos e nos dá o acesso à verdade. Sobretudo, também, não pensar que a razão positivista, que exclui o transcendente – que não pode ser acessível – é a verdadeira razão! Esta razão frágil, que só apresenta as realidades experimentáveis, é realmente uma razão insuficiente. Nós teólogos devemos usar a razão grande, que está aberta à grandeza de Deus. Devemos ter a coragem de ir além do positivismo à questão das raízes do ser. Isto parece-me de grande importância. Portanto, é preciso ter a coragem da grande, ampla razão, ter a humildade de não se submeter a todas as hipóteses do momento, viver da grande fé da Igreja de todos os tempos. Não há uma maioria contra a maioria dos Santos: a verdadeira maioria são os Santos na Igreja e devemos orientar-nos por eles! Depois, digo o mesmo aos seminaristas e aos sacerdotes: Pensai que a Sagrada Escritura não é um livro isolado: é vivo na comunidade viva da Igreja, que é o mesmo sujeito em todos os séculos e garante a presença da Palavra de Deus. O Senhor deu-nos a Igreja como sujeito vivo, com a estrutura dos Bispos em comunhão com o Papa, e esta grande realidade dos Bispos do mundo em comunhão com o Papa garante-nos o testemunho da verdade permanente. Tenhamos confiança neste Magistério permanente da comunhão dos Bispos com o Papa, que nos representa a presença da Palavra. E depois, tenhamos confiança também na vida da Igreja e, sobretudo, devemos ser críticos. Certamente a formação teológica – gostaria de dizer isto aos seminaristas – é muito importante. No nosso tempo devemos conhecer bem a Sagrada Escritura, também precisamente contra os ataques das seitas; devemos ser realmente amigos da Palavra. Devemos conhecer também as correntes do nosso tempo para poder responder razoavelmente, para poder – como diz São Pedro – "explicar a razão faz nossa fé". A formação é muito importante. Mas devemos ser também críticos: o critério da fé é o critério com o qual ver também os teólogos e as teologias. O Papa João Paulo II deixou-nos um critério absolutamente seguro no Catecismo da Igreja Católicavemos nele a síntese da nossa fé, e este Catecismo é verdadeiramente o critério para ver para onde se orienta uma teologia aceitável ou inaceitável. Portanto, recomendo a leitura, o estudo deste texto, e assim podemos ir em frente com uma teologia crítica no sentido positivo, ou seja, contra as tendências da moda e aberta às verdadeiras novidades, à profundidade inexaurível da Palavra de Deus, que se revela nova em todos os tempos, também no nosso.


Europa
P. – Santo Padre, sou Pe. Karol Miklosko e venho da Europa, exactamente da Eslováquia, e sou missionário na Rússia. Quando celebro a Santa Missa encontro-me a mim mesmo e compreendo que ali encontro a minha identidade, a raiz e a energia do meu ministério. O sacrifício da Cruz revela-me o Bom Pastor que dá tudo pelo rebanho, por cada ovelha, e quando digo: "Isto é o meu corpo... isto é o meu sangue" oferecido e derramado em sacrifício por vós, então compreendo a beleza do celibato e da obediência, que livremente prometi no momento da ordenação. Mesmo com as dificuldades naturais, o celibato parece-me óbvio, olhando para Cristo, mas sinto-me transtornado ao ler tantas críticas mundanas a este dom. Peço-lhe humildemente, Padre Santo, que nos ilumine sobre a profundeza e o sentido autêntico do celibato eclesiástico.

R. – Obrigado pelas duas partes da sua pergunta. A primeira, onde mostra o fundamento permanente e vital do nosso celibato; a segunda, que mostra todas as dificuldades nas quais nos encontramos no nosso tempo. A primeira é importante, isto é: o centro da nossa vida deve ser realmente a celebração quotidiana da Sagrada Eucaristia; e aqui são centrais as palavras da consagração: "Isto é o meu Corpo, isto é o meu Sangue", ou seja: falamos "in persona Christi".Cristo permite que usemos o seu "eu", que falemos no "eu" de Cristo, Cristo "atrai-nos para si" e permite que nos unamos, une-nos com o seu "eu". E assim, através desta acção, este facto que Ele nos "atrai" para si mesmo, de modo que o nosso "eu" se torna um só com o seu, realiza a permanência, a unicidade do seu Sacerdócio; assim Ele é sempre realmente o único Sacerdote, e contudo muito presente no mundo, porque nos "atrai" para si mesmo e deste modo torna presente a sua missão sacerdotal. Isto significa que somos "atraídos" para o Deus de Cristo: é esta união com o seu "eu" que se realiza nas palavras da consagração. Também no "estás perdoado" – porque nenhum de nós poderia perdoar os pecados – é o "eu" de Cristo, de Deus, o único que pode perdoar. Esta unificação do seu "eu" com o nosso implica que somos "atraídos" também para a sua realidade de Ressuscitado, que prosseguimos rumo à vida plena da ressurreição, da qual Jesus fala aos Saduceus em Mateus, capítulo 22: é uma vida "nova", na qual já estamos além do matrimónio (cf. Mt 22, 23-32). É importante que nos deixemos sempre de novo embeber por esta identificação do "eu" de Cristo connosco, por este ser "lançados" para o mundo da ressurreição. Neste sentido, o celibato é uma antecipação. Transcendamos este tempo e caminhemos em frente, e assim "atrairemos" para nós próprios e o nosso tempo rumo ao mundo da ressurreição, à novidade de Cristo, à vida nova e verdadeira. Por conseguinte, o celibato é uma antecipação tornada possível pela graça do Senhor que nos "atrai" para si rumo ao mundo da ressurreição; convida-nos sempre de novo a transcender-nos a nós mesmos, este presente, rumo ao verdadeiro presente do futuro, que hoje se torna presente. E chegamos a um ponto muito importante. Um grande problema da cristandade do mundo de hoje é que já não se pensa no futuro de Deus: só o presente deste mundo parece suficiente. Queremos ter só este mundo, viver só neste mundo. Assim fechamos as portas à verdadeira grandeza da nossa existência. O sentido do celibato como antecipação do futuro é precisamente abrir estas portas, tornar o mundo maior, mostrar a realidade do futuro que deve ser vivido por nós como presente. Por conseguinte, viver assim num testemunho da fé: cremos realmente que Deus existe, que Deus tem a ver com a minha vida, que posso fundar a minha vida em Jesus, na vida futura. E conhecemos agora as críticas mundanas das quais o senhor falou. É verdade que para o mundo agnóstico, o mundo no qual Deus não tem lugar, o celibato é um grande escândalo, porque mostra precisamente que Deus é considerado e vivido como realidade. Com a vida escatológica do celibato, o mundo futuro de Deus entra nas realidades do nosso tempo. E isto deveria desaparecer! Num certo sentido, esta crítica permanente contra o celibato pode surpreender, num tempo em que está cada vez mais na moda não casar. Mas este não-casar é uma coisa total, fundamentalmente diversa do celibato, porque o não-casar se baseia na vontade de viver só para si mesmo, de não aceitar qualquer vínculo definitivo, de ter a vida em todos os momentos em plena autonomia, decidir em qualquer momento como fazer, o que tirar da vida; e portanto um "não" ao vínculo, um "não" à definitividade, um ter a vida só para si mesmos. Enquanto o celibato é precisamente o contrário: é um "sim" definitivo, é um deixar-se guiar pela mão de Deus, entregar-se nas mãos do Senhor, no seu "eu", e portanto é um acto de fidelidade e de confiança, um acto que supõe também a fidelidade do matrimónio; é precisamente o contrário deste "não", desta autonomia que não se quer comprometer, que não quer entrar num vínculo; é precisamente o "sim" definitivo que supõe, confirma o "sim" definitivo do matrimónio. E este matrimónio é a forma bíblica, a forma natural do ser homem e mulher, fundamento da grande cultura cristã, das grandes culturas do mundo. E se isto desaparecer, será destruída a raiz da nossa cultura. Por isso, o celibato confirma o "sim" do matrimónio com o seu "sim" ao mundo futuro, e assim queremos ir em frente e tornar presente este escândalo de uma fé que baseia toda a existência em Deus. Sabemos que ao lado deste grande escândalo, que o mundo não quer ver, existem também os escândalos secundários das nossas insuficiências, dos nossos pecados, que obscurecem o verdadeiro e grande escândalo, e fazem pensar: "Mas, não vivem realmente no fundamento de Deus!". Mas há tanta fidelidade! O celibato, mostram-no precisamente as críticas, é um grande sinal de fé, da presença de Deus no mundo. Rezemos ao Senhor para que nos ajude a tornar-nos livres dos escândalos secundários, para que torne presente o grande escândalo da nossa fé: a confiança, a força da nossa vida, que se funda em Deus e em Jesus Cristo!


Ásia
P. – Santo Padre, sou Pe. Atsushi Yamashita e venho da Ásia, precisamente do Japão. O modelo sacerdotal que Vossa Santidade nos propôs neste Ano, o Cura d'Ars, vê no centro da existência e do ministério a Eucaristia, a Penitência sacramental e pessoal e o amor ao culto, dignamente celebrado. Tenho diante dos olhos os sinais da pobreza austera de São João Maria Vianney e ao mesmo tempo da sua paixão pelas coisas preciosas para o culto. Como viver estas dimensões fundamentais da nossa existência sacerdotal, sem cair no clericalismo ou numa estraneidade à realidade, que o mundo hoje não nos permite?

R. – Obrigado. Portanto, a pergunta é como viver a centralidade da Eucaristia sem se perder numa vida meramente cultual, alheios à vida de todos os dias das outras pessoas. Sabemos que o clericalismo é uma tentação dos sacerdotes em todos os séculos, também hoje. Muito mais importante é encontrar o modo verdadeiro de viver a Eucaristia, que não é um fechamento ao mundo, mas precisamente abertura às necessidades do mundo. Devemos ter presente que na Eucaristia se realiza este grande drama de Deus que sai de si mesmo, deixa – como diz a Carta aos Filipenses – a sua própria glória, sai e desce até ser um de nós e desce até à morte na Cruz (cf. Fl2). A aventura do amor de Deus, que deixa, se abandona a si mesmo para estar connosco  e isto torna-se presente na Eucaristia; o grande acto, a grande aventura do amor de Deus é a humildade de Deus que se doa a nós. Neste sentido a Eucaristia deve ser considerada como o entrar neste caminho de Deus. Santo Agostinho diz, no De Civitate Dei, livro X: "Hoc est sacrificium Christianorum: multi unum corpus in Christo", isto é: o sacrifício dos cristãos é estar congregados pelo amor de Cristo na unidade do único corpo de Cristo. O sacrifício consiste precisamente em sair de nós, em deixar-nos atrair pela comunhão do único pão, do único Corpo, e deste modo entrar na grande aventura do amor de Deus. Assim devemos celebrar, viver, meditar sempre a Eucaristia, como uma escola da libertação do meu "eu": entrar no único pão, que é pão de todos, que nos une no único Corpo de Cristo. E por conseguinte, a Eucaristia é, em si, um acto de amor, obriga-nos a esta realidade do amor pelos outros: que o sacrifício de Cristo é a comunhão de todos no seu Corpo. E por conseguinte, deste modo devemos aprender a Eucaristia, que de resto é precisamente o contrário do clericalismo, do fechamento em si mesmo. Pensemos também em Madre Teresa, deveras o exemplo grande neste século, neste tempo, de um amor que se deixa a si mesmo, que deixa qualquer tipo de clericalismo, de estraneidade ao mundo, que vai ao encontro dos mais marginalizados, dos mais pobres, das pessoas que estão próximas da morte e se entrega totalmente ao amor pelos pobres, pelos marginalizados. Mas Madre Teresa, que nos ofereceu este exemplo, a comunidade que segue os seus passos supunha sempre como primeira condição de uma sua fundação a presença de um tabernáculo. Sem a presença do amor de Deus que se doa não teria sido possível realizar aquele apostolado, não teria sido possível viver naquele abandono de si mesmos; só inserindo-se neste abandono de si em Deus, nesta aventura de Deus, nesta humildade de Deus, podiam e podem realizar hoje este grande acto de amor, esta abertura a todos. Neste sentido, diria: viver a Eucaristia no seu sentido originário, na sua verdadeira profundidade, é uma escola de vida, é a protecção mais segura contra qualquer tentação de clericalismo.


Oceânia
P. – Beatíssimo Padre, sou Pe. Anthony Denton e venho da Oceânia, da Austrália. Esta noite, aqui, somos numerosíssimos sacerdotes. Mas sabemos que os nossos seminários não estão cheios e que, no futuro, em várias partes do mundo, esperamos uma diminuição, até brusca. O que fazer de verdadeiramente eficaz pelas vocações? Como propor a nossa vida, no que nela existe de grande e de belo, a um jovem do nosso tempo?

R. – Obrigado. Realmente o senhor refere-se de novo a um problema grande e doloroso do nosso tempo: a falta de vocações, devido à qual as Igrejas locais correm o risco de se tornar áridas, porque falta a Palavra de vida, falta a presença do sacramento da Eucaristia e dos outros Sacramentos. Que fazer? A tentação é grande: tomar nós próprios as rédeas do problema, transformar o sacerdócio o sacramento de Cristo, o ser eleito por Ele numa profissão normal, num "job" que ocupa as suas horas, e o resto do dia pertencer só a si mesmo; e deste modo tornando-o como qualquer outra vocação: torná-lo acessível e fácil. Mas esta é uma tentação que não resolve o problema. Faz-me pensar na história de Saul, rei de Israel, que antes da batalha contra os Filisteus espera Samuel para o necessário sacrifício a Deus. E quando Samuel, no momento esperado, não vem, ele mesmo realiza o sacrifício, mesmo não sendo sacerdote (cf. 1 Sm 13); pensa que assim resolve o problema, que naturalmente não resolve, porque assume ele mesmo aquilo que não pode fazer, torna-se ele mesmo Deus, ou quase, e não pode esperar que as coisas procedam realmente à maneira de Deus. Assim, também nós, se desempenhássemos só uma profissão como outros, renunciando à sacralidade, à novidade, à diversidade do sacramento que só Deus dá, que só pode vir da sua vocação e não do nosso "fazer", nada resolveríamos. Por isso devemos como nos convida o Senhor rezar a Deus, bater à porta do coração de Deus, para que nos conceda as vocações; rezar com grande insistência, com grande determinação, com grande convicção, porque Deus não se fecha a uma oração insistente, permanente, confiante, mesmo se deixa fazer, esperar, como Saul, além dos tempos que nós previmos. Este parece-me o primeiro ponto: encorajar os fiéis a ter esta humildade, esta confiança, esta coragem de rezar com insistência pelas vocações, de bater à porta do coração de Deus para que nos conceda sacerdotes. Além disto, acrescentaria talvez três aspectos: o primeiro: cada um de nós deveria fazer o possível para viver o próprio sacerdócio de tal modo que seja convincente, de maneira que os jovens possam dizer: esta é uma verdadeira vocação, assim pode-se viver, assim faz-se uma coisa essencial para o mundo. Penso que nenhum de nós se teria tornado sacerdote, se não tivesse conhecido sacerdotes convincentes nos quais ardia o fogo do amor de Cristo. Portanto, este é o primeiro aspecto: procuremos ser nós mesmos sacerdotes convincentes. O segundo, é que devemos convidar, como já disse, para a iniciativa da oração, para ter esta humildade, esta confiança de falar com Deus, com força, com decisão. O terceiro aspecto: ter a coragem de falar com os jovens, se podem pensar que Deus os chame, porque muitas vezes é necessária uma palavra humana para predispor para a escuta à vocação divina; falar com os jovens e sobretudo ajudá-los a encontrar um contexto vital no qual possam viver. O mundo de hoje é tal que parece quase excluída a maturação de uma vocação sacerdotal; os jovens precisam de ambientes nos quais se viva a fé, nos quais sobressaia a beleza da fé, nos quais sobressaia que este é um modelo de vida, "o" modelo de vida, e portanto ajudá-los a encontrar movimentos, ou a paróquia – a comunidade na paróquia – ou outros contextos nos quais estejam realmente circundados pela fé, pelo amor de Deus, e possam portanto abrir-se para que a vocação de Deus os alcance e ajude. De resto, demos graças ao Senhor por todos os seminaristas do nosso tempo, pelos jovens sacerdotes, e rezemos. O Senhor ajudar-nos-á! Obrigado a todos vós!